Art

ENTREVISTA A RODRIGO COSTA

By lucasfads | October 23, 2012

     

POR OCASIÃO DA SUA EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL NO PORTO, A DECORRER NA GALERIA ARTES SOLAR SANTO ANTÓNIO, ATÉ 3 DE NOVEMBRO, FALÁMOS COM UM AMIGO E UM ARTISTA PLÁSTICO SOBRE OS MUNDOS DA ARTE. UMA CONVERSA SEM PAPAS NA LÍNGUA!

Quando começou a tua relação com a pintura? Foi um começo tardio ou os começos não têm uma altura pré-definida e o meio onde cresceste foi propício ao teu interesse pela arte e desenvolvimento artístico?
A minha relação não começou com a pintura, no sentido elaborado do termo, mas com o desenho. Com as cores, também, naturalmente, mas com as limitações próprias do tempo e do contexto — nunca, na família, que eu saiba, existiu alguém ligado ao fenómeno-Arte; e o que havia era o lápis trivial, com que aprendi, quase em simultâneo, a escrever, no enquadramento da aprendizagem das letras, e no avanço para a leitura, que podia fazer, antes, ainda, dos 5 anos, devido à minha curiosidade, ao interesse em saber, que, felizmente, até hoje, se mantém.
Por razões de ordem económica, o tipo de famílias em que a minha se incluía não podia alimentar devaneios. Beneficiei, apesar de tudo, tendo em conta as dificuldades, de poder escolher entre estudar ou trabalhar; e estudar significava tirar um curso considerado útil, capaz de garantir um lugar no mercado de trabalho; que assegurasse retorno — um salário e uma posição mais confortável do que a que, por norma, tinham os nossos pais. Logo, a Arte não era caminho que se recomendasse, quando a coluna das prioridades apontava noutro sentido.
Como costumava dizer a minha mãe, sempre tive boca de rico e bolsa de pobre; nunca fui de meias-tintas: ou tudo ou nada. E, sem me sentir culpado, acabei por trair as expectativas dos meus pais, devido a alguma precocidade que fui revelando; levando-os a pensar que eu iria longe, enquanto eu pressentia que não estávamos a pensar na mesma distância.
Por imposição do meu pai, cheguei ao ciclo preparatório, mas, no segundo ano, já lá estava como quem puxa carroças. Chumbei, quis desistir, e o meu pai — surpreendentemente e rendido à evidência — aceitou a minha decisão: trabalhar. Tinha início uma espécie de adeus aos sonhos… que, afinal, haveriam de sobreviver.

Com um percurso profissional nas artes gráficas, acabaste por não fazer uma abordagem académica dentro das artes plásticas. O facto de seres autodidacta é uma vantagem ou desvantagem?
Bem!, as artes gráficas não apareceram logo. Antes disso, andei por várias oficinas — sempre gostei de carros; e eles eram o que ficava mais perto, como coisa a que poderia deitar a mão. Era possível ser-se mecânico, chapeiro ou pintor de automóveis. Assim, dos vários gostos, era o único, aparentemente, mais fácil de alimentar, porque, como refiro atrás, estavam proibidas as paixões que não traziam retorno — eu ainda não tinha a noção que adquiri mais tarde, a de que, raramente, uma paixão dá lucro… a não ser que nos apaixonemos pelo dinheiro, e ele funcione como espécie de estrela polar que seguimos por todos os meios. Uma chatice!
As artes gráficas chegaram, quando eu tinha 14 anos — e eu já trabalhava desde os 12. E chegaram, porque a minha mãe me sentia infeliz, e sentia-se farta de andar, de um lado para o outro, até encontrar alguma coisa que me satisfizesse, porque nunca demorei muito em nenhum sítio; e achou que, se arranjasse algo que se aproximasse do meu gosto pelos desenhos, eu ficaria mais dentro das minhas águas… Porém, a grande dificuldade, suponho, seria saber quais eram, de facto, as minhas águas.
Fosse onde fosse e no que fosse, sempre me senti deslocado. E sinto pena de que tivessem ido embora sem que pudessem conhecer o meu destino, ou, melhor, o que queria, como destino, porque a história ainda não acabou — a minha mãe ainda pôde estar na primeira colectiva, em 1984; e aquece-me, é verdade, lembrá-la como que saboreando alguma coisa doce… Nunca esquecerei a expressão do rosto.
Julgo ser fácil perceber-se, independentemente da abordagem que se faça, tendo em vista a aferição da qualidade do meu trabalho, que a Pintura nunca me saiu da cabeça. Eu tinha à volta dos 25 anos, quando surgiu a peúltima chamada; e, como pessoa que, normalmente, praticasse pintura ou, mesmo, desenhasse, com muita ou pouca regularidade, isso não acontecia. Pensava, é um facto, mas o contexto não era indutor. Inclusive, nesse tempo, eu andava pelas litografias; não tinha, ainda, dado entrada nas agências de publicidade. Isso aconteceria mais tarde.
Vindo da tropa, pensei e matriculei-me na Soares dos Reis, acabando por fazer, à noite, o Curso Geral de Artes Visuais, onde tive contacto, agora sim, com o desenho, tal como eu o imaginava, mas sem qualquer abordagem, em termos técnicos ou teóricos, à Pintura. Daí eu ter voltado a abandonar a Escola, porque continuava a não ter o que queria; não encontrava as respostas que, consciente e inconscientemente, procurava.

Como já era adulto e, em função das múltiplas experiências vividas, decidi que deveria, por minha conta e risco, trabalhar o meu futuro; ir ao encontro do que me interessava.
Depois, Abril ainda estava fresco, e a ideologia política tinha grande influência na filosofia artística; eram apresentados modelos de ensino e de discurso que não me seduziam, na medida em que nunca quis ser-por-ser, nem nunca procurei, como finalidade, um diploma, um título. Para mim, as aprendizagens são isso, aprender para chegar ao conhecimento, ao domínio, como prioridade.
Então, em 1990, deixei tudo, para me dedicar, em exclusivo, àquilo que tem sido, até hoje, a minha vida, pintar e escrever. No fundo, o regresso às raízes, às paixões paralelas.
Quanto às vantagens e desvantagens de se ser autodidacta… Como em tudo, sempre existem os prós e contras. Os prós são o desenvolvimento de personalidade própria, porque as procuras são feitas a solo, mesmo se se tem modelos, por referência, porque ninguém se desenvolve sem referências, sem olhar em redor, colhendo afinidades, conversando com pessoas diversas, que não têm que ser, necessariamente, especializadas;
Os prós, são as horas e horas de solilóquio, de viagens ao nosso interior, no sentido de nos percebermos, de percebermos a Vida e de procurarmos o enquadramento, a sintonia; o ajustamento entre Ser e contexto, para que, ao invés de vivermos de citações, possamos falar com voz-própria, suportados pela experiência vivida, e evitar ou reduzir, pelo menos, o espaço a projectos que não fazem sentido;
Os prós, em suma, são a aprendizagem da autoconfiança e da autonomia; a possibilidade de aprendermos a organizar o pensamento, de modo a mantermo-nos frios, mesmo nos momentos em que nos assaltam as dúvidas, porque há ou passa a haver, estabelecida, a chamada coluna das prioridades.
Os contras são a distância, maior, a que nos encontramos de fontes de informação privilegiada, resultando, às vezes, numa maior demora — que a intuição, de algum modo, compensa — na confirmação de algumas ideias. No entanto, já de há muito tempo, a informação é abundante; quase se pode fazer alguns cursos por conta-própria, evitando as imposições temáticas e discursivas.
No entanto, o contra fundamental é a natureza do País. Um ortopedista pode ir ao endireita, mas, abertamente, não o recomenda — não me lembrei disto, por acaso. A mentalidade é demasiado tacanha, é incapaz de reconhecer a capacidade que não tem diploma; carece de adornos, de chinfrim; e, esta dos artistas-doutores… nunca lembraria ao diabo!
Aliás, na sequência do contra fundamental, fazendo parte dele, é impensável que um autodidacta possa ganhar, por exemplo, qualquer prémio — de pintura, neste caso —, porque colocaria em causa a importância da Escola, como instituição. E lembro aquela anedota do médico que chegou à parada, para observar um soldado que, durante a revista, tinha desfalecido. O doutor analisa-o e conclui que o soldado está morto; segue em frente e, de repente, ouve-se o desgraçado dizer que está vivo. O sargento, volta-se e diz-lhe: — O Senhor Doutor diz que estás morto, estás morto!!!
Acrescento, apenas, que não há nenhuma escola que faça artistas. Quem, ao entrar para a Escola, ainda não for, pode ter a certeza de que, quando sair, não será, porque o que a Escola faz, ou pode fazer — tudo depende da categoria de quem ensina —, é trabalhar a essência, o elemento, porque ninguém pode tirar de onde não há.
Usando uma analogia, para ajudar à melhor compreensão da ideia, eu apresento a Escola como a terra, o aluno como semente. A terra pode ser boa e a semente má; a terra pode ser má e a semente boa. Para além disso, a terra e a semente podem ser boas; mas não podemos semear cenouras e esperar que germinem rabanetes.
Honestamente, continuo a encontrar mais prós do que contras, no ensino por conta-própria. Se vivesse noutro país, talvez a minha visão fosse outra; mas, como é aqui que vivo e é daqui que recebo a visão mais próxima, não tenho dúvidas; o País e o caos estão aí.

Como caracterizas a qualidade do ensino das artes plásticas no nosso país e a forma como ele está estruturado?
A minha condição de marginal não me permite fazer afirmações categóricas, a partir da experiência colhida nos corredores e nas salas de aulas. Nunca frequentei a Faculdade de Belas-Artes, e, portanto, a ideia que tenho provém do contacto com os trabalhos que vou vendo, por alguma conversas que fui tendo com alunos e, diga-se, pelo trabalho e pelo discurso de alguns dos professores.
Também, aqui, para ensinar, o que é imprescindível é a habilitação literária, digamos; um diploma que ateste que fulano ou sicrano podem, instituidamente, dar aulas, independentemente da capacidade, da predisposição, natural, para transmitir ensinamentos.
É aqui que começa, muitas vezes, o desconforto de quem vai à procura de conhecimento e desagua num asilo, onde pessoas, habilitadas, se escondem das tempestades económicas; porque essas pessoas nunca quiseram, efectivamente, ensinar, mas segurar-se; ter, nos alunos, um pretexto para a própria sobrevivência.
Não direi nada de novo, se disser que o que se sabe não é suficiente para que se ensine; é necessário saber-se como ensinar o que se sabe, num contexto de permanente reciclagem dos conhecimentos. Depois, ensinar não é, neste âmbito, transmitir, apenas, conhecimentos técnicos. O professor obriga-se a ter alguma coisa de psicanalista, na medida em que tem que ajustar e ajustar-se a naturezas diversas, que, usando ou podendo usar ferramentas e fórmulas comuns, terão, em princípio, um caminho próprio, uma voz-própria, que não se revê em formatações.
Não chega, não é suficiente, eleger, por exemplo, a Paula Rego, o Gerard Richter, o Damien Hirst ou o Freud, e desatar a impor aos alunos os clichés, porque a Arte vive mais da transversalidade e da intemporalidade das filosofias do que de um ou outro artista ou de um ou outro momento de alguns artistas.
Não se pode, por exemplo, alimentar a ideia de repetir Pollock, se o aluno ou os alunos não têm problemas de ciclotimia e de alcoolismo. Mais do que um artista, o Pollock, era um indivíduo que se expressava de acordo com a natureza de alguém que, podendo ser artista, na sua condição, era, essencialmente, um Ser que se debatia com os seus fantasmas.
Não me parece que um professor, mentalmente equilibrado e com conhecimento, possa ensinar os alunos a servirem-se de uma só perna, quando eles têm duas. Se o fizer, não estará ao serviço do Ensino, mas ministrando aulas de deficiência.
E a verdade — aqui, sim, posso ser categórico, em função do que vejo — é que o que as escolas ou muitas das escolas estão a produzir são deficientes; jovens e professores, afectivamente, desesperados, levados para longe deles próprios, do equilíbrio e, por conseguinte, da sanidade. No fim de contas, redutos onde — pretensa e assumidamente — se diz ser trabalhada a originalidade, mas que não passam de centros a tresandar de enfermos e de cópias.

O gosto, o jeito e as capacidades técnicas para transpor ideias são factores que se adquirem com o tempo e a prática ou também são fundamentais as características idiossincráticas de cada artista?
Como digo, atrás, não podemos semear cenouras e esperar rabanetes. Ninguém nasce para ser pintor, escultor, médico, jogador de futebol, etc, etc, etc… Nasce, sim, em função dos cálculos majoritados, com atributos que, quando em contexto social, de actividades sociais, lhe permitem, individualmente, destacar-se em áreas específicas.
A mim, por exemplo, se me passasse pela cabeça ser basquetebolista, teria que ter, no mínimo, duas características fundamentais: ser exímio no domínio de bola e ter excelente meia-distância, porque não tenho altura para discutir lances debaixo dos cestos nem, muito menos, fazer afundanços. Então, jamais pensaria acusar a NBA de discriminação, por me vedar o acesso, depois de prestar provas, porque as limitações se tornariam demasiado evidentes.
Ora, o mundo das artes ou da Arte, no seu todo, vive de sensibilidade e poesia — não estou a falar de fragilidade nem de sussurros, mas da capacidade de sentir e conjugar e produzir harmonias, quer seja escrevendo sobre sonhos cor-de-rosa ou sobre tragédias; com uma pluma ou com uma barra de ferro; pintando com as mãos ou com os pés; com pincéis, espátulas ou vassouras, porque a poesia não é o tema, as palavras nem as ferramentas, mas o sentimento, a atmosfera que estimula a busca das palavras e nos leva à procura das ferramentas adequadas à expressão que queremos.
O exercício, a educação, é uma necessidade, independentemente de se ser ou não se ser dotado. Se olharmos para nós, enquanto pessoas, e nos virmos como alguém com as pernas compridas, a verdade é que, se quisermos chegar a algum sítio, temos que lhes dar uso. Se não o fizermos, mesmo sem termos destino, não só não iremos a lugar algum como acabaremos perros, porque o dom, sendo condição necessária, não é suficiente, tem que ser trabalhado, ginasticado.

Agora… todos pudemos ver que o Bolt começa a frear, antes da meta, quando os outros velocistas estão a dar tudo; sem que nada tenha a ver com a falta de treino, mas com a falta de dom ou se se quiser, com a diferença do dom.

As palavras génio e genialidade têm sido um pouco banalizadas nestes últimos 20 anos. É uma necessidade das sociedades criarem novos mitos ou é antes um mero negócio de promoção de certas tendências e pensamentos?
Eu diria que é mais porque o ser humano tem vindo, progressiva e apressadamente, a empobrecer; passando, o negócio, a ser o objectivo principal de todo o espectáculo, coadjuvado por figuras estranhas e manobráveis, devido, exactamente, à sua ignorância, à falta de experimentar fazer para se ter ideia do que é, realmente, exigência.
Hoje, por exemplo, basta um curso de história de arte e, vá lá!, outro de curadoria, e temos autênticos condensados de disparates na gestão de espaços e de eventos de grande responsabilidade.
E trago, à colação, a famosa exposição Diálogos de Vanguarda, na Gulbenkian, há quatro ou cinco anos, com uma montagem que só poderia ser feita por naïfs, na melhor das hipóteses, porque o Amadeo não tem ponta por onde se lhe pegue; nunca podendo ser interveniente em diálogo algum, porque nunca teve nada, de seu, que pudesse ser dito — saiu daqui a fazer casas tortas, e regressou a cantar as canções daqueles em casa de quem dormiu.
Eu fui, propositadamente, ver a exposição; não para ver as obras do Amadeo — mais coisa, menos coisa, já as conheço —, mas para ver como é que a exposição tinha sido montada, tendo eu a certeza — que confirmei — de que o homem acabaria submetido a ridículo, como travesti misturado com autores de personalidade própria, de caminho específico, delineado, gostando-se ou não, singular.
Foi um fartote! Posicionei-me no meio das salas, porque queria ver como é que as pessoas o identificavam; como é que conseguiriam distinguir alguém que, proclamando a originalidade — nos excertos de entrevistas, ampliados e colados, despudoradamente, nas paredes —, nada tinha que fosse, etimologicamente, seu.
As pessoas dirigiam-se para o que pensavam ser um dos seus trabalhos e, de repente, olhavam para a assinatura e liam… Sonia Delaunay, por exemplo, ou de um ou outro Russo de que o Amadeu bebera, até ficar bêbado.
O que o Amadeo ou a família teve, no momento certo, não foi genialidade, mas dinheiro. Sem peso económico e sem a respectiva influência social, Amadeo, como Amadeo, não teria existido.
E cobriu-se, também, Picasso de genialidade, outro exemplo, embora mais ladino, que eu não consigo ver como mais do que aprendiz de sapateiro, se comparado, para ir mais longe e pedindo desculpa, com da Vinci, figura que incluo no grupo dos senhores-Pensamento.
Aliás, quem passa, como Picasso fez, a dar prioridade ao mundanismo deixa de poder ser, se era, profundo; a Vida impede-o de subir alto ou mergulhar até às profundezas, porque colide com hábitos de superfície, onde, por norma, nada há de sério, a não ser que perdido.
Mas, avançando no tempo, temos Damien Hirst, cuja genialidade se deve ao apoio do Saatchi, um homem que, pelo seu poder económico e influência no panorama internacional da Arte e da Cultura, pode transformar qualquer anão em gigante, basta que o apalpe. E penso não ser abusivo referir Paulo Portas, como hipotético aprendiz de Saatchi, com tirocínio em Versailles e, ao que parece, com mestrado que será conseguido em Queluz.

Recomendo, a quem quiser e quiser investir algum tempo, o livro Sete Dias no Mundo da Arte, de Sarah Thornton, uma jornalista canadiana, residente em Londres, que fez um périplo pelos mais elevados cantos do movimento artístico, à procura de perceber o que é a Arte e o que é um artista, e que acabou mais confundida do que quando começou. Sempre que pensou ter perfurado brumas, encontrou o negócio… e a genialidade dos negociantes, fossem eles artistas, galeristas, curadores ou cabos de esquadra. Uma verdadeira família.
Concluindo, não se pode falar de tendências nem, muito menos, de pensamentos, porque estaríamos a elevar as expectativas, e elas não têm sustança para chegar tão alto.
E, por último, por último, esqueçam essa ideia da ligação entre a genialidade e a loucura, porque a genialidade é só o exacerbo dos sentidos; e, loucura, a desarrumação. Coisas distintas. Poderá é perguntar-se qual delas é melhor negócio. Mas, isso, já está respondido, apesar de todos, neste momento, tremerem de falência.

A que se devem súbitos entusiasmos sobre a obra de certos artistas plásticos, logo transformados em embaixadores da cultura portuguesa? É parolice ou negócio puro e duro?
Portugal, no seu todo, não é um país que devamos levar a sério. Já todos percebemos — os que perceberam— que não há um plano-director; aquilo a que poderíamos chamar fio-de-jogo.
Quando encontramos valores — valores reais — que vão aparecendo, eles são, em regra, de gestação espontânea; pessoas com o tal dom, que trabalharam e trabalham por si mesmas; não sendo produto do investimento do País nem sendo, necessariamente, reconhecidas; menos, ainda, se não tiverem afinidades, sejam elas de ordem familiar, política ou sexual, porque ninguém, como valor reconhecido, sobrevive, se não fizer parte ou não estiver sob a protecção de algum clã influente.
E o caso da Cultura e da Arte é um terreno muito próprio, muito específico; é um terreno gerido por pseudointelectuais, escorados e escudados, que vão definindo o que é e o que não é. E volto a aludir a algumas instituições, como a Fundação Berardo ou a Culturgest, sem deixar de lado a Fundação de Serralves, que ilustro com a famosa exposição O Olho do Cu, como exemplos da actualidade governativa de um país a cair de podre.
Houve, e ainda se sente, apesar de tudo, a influência do Partido Comunista, mesmo a nível internacional — Picasso chegou a receber a comenda —, na promoção de figuras que por lá andaram e que, beneficiando de uma espécie de solidariedade de classe ou de grupo, se viram catapultadas para posições relevantes, independentemente dos méritos artísticos.
A esquerda fazia-os e a direita consumia-os; porque, sendo, a generalidade da comunicação social, as secções da cultura, essencialmente, preenchidas por jornalistas que eram e/ou são ou se dizem afectos à ideologia, os canais de divulgação mantinham-se e mantêm-se disponíveis, mesmo se se observa sinais de uma esquerda diferente, com a introdução de um elemento novo, o aparecimento da homossexualidade que se foi constituindo naquilo de que toda a gente fala, mas não assume: o denominado lobby gay, que eu digo ser o mesmo movimento que, antes, era liderado pelos homens que pensam com a glande, e que, agora, é liderado pelos homens que pensam com o cu.
Então, o panorama é um pouco diferente, hoje. Hoje, pode dizer-se que a esquerda e o lobby gay os preparam, e que a direita os consome, como senhora que adora, inclusive, pechisbeques… desde que brilhem; embora eu nunca tenha encontrado grande diferença entre esquerda e direita, sendo a minha perspectiva suportada por sucessivas deserções de promovidos, à medida que foram ficando, a pouco-e-pouco, mais próximos dos privilégios e das massas — não foi Saramago quem disse que a esquerda é tonta, e que se deveria votar em branco?…
Não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu — é um ditado que não é novo.
Ser-se embaixador de Portugal é, muito, ser-se embaixador disto. E nem me parece, nesta altura, que seja, propriamente, um grande negócio — e a crise até pode ser, nos domínios da Arte, um momento de reciclagem, porque não há nada que mais assuste os ratos do que a luz e a perspectiva de fome.

O teu trabalho é muitas vezes conotado como sendo coisa antiga. Como é que reages a este tipo de afirmações?
Eu tenho existido ou tentado existir como se o homem e o artista sejam um só. Porque são e porque percebo que, quanto mais o homem se assumir, em resultado da sua génese e do entendimento do mundo, da Humanidade, mais o artista beneficia, porque não perde as referências da sua origem; não se distancia do seu étimo, o homem.
Quero eu dizer, portanto, logo à partida, que a minha preocupação é descobrir o meu tempo dentro do Tempo, mais do que procurar a modernidade ou a contemporaneidade — que, eu diria, a maior parte dos defensores da tese nem sabe o que é.
A afirmação pouco ou nada me preocupa, no sentido de me obrigar a reflectir sobre as minhas escolhas ou a minha filosofia. Até porque, por norma, eu levo mais tempo a pensar sobre esses assuntos do que a maioria das pessoas que fazem a afirmação ou deixam a ideia.
Eu sou ou procuro ser o que sou em cada momento, e não pretendo ser uma Rebecca Warren — volto ao livro da Sarah Thornton —, a escultora que assumiu não adorar, necessariamente, o que fazia, pouco antes de lhe ser entregue o Prémio Turner.
Não procuro fórmulas de penetração; procuro fórmulas de realização, aquelas que me permitem a assunção por inteiro, sem equilibrismos, sem sofismas. Sou uma pessoa de gosto-próprio, de vontade-própria; aberto ao diálogo e aos ajustamentos, desde que eu entenda as razões, que não podem estar sujeitas aos aspectos comercial e de divulgação. Para isso, tinha ficado onde estava, na publicidade, com salário fixo e trabalhando ao gosto do freguês; ou, voltando um pouco atrás, ter-me-ia inscrito num partido ou encostado a qualquer outro lobby dominante, continuando, à mesma, como espécie de dj que se limitaria a pôr a mão nos discos que fossem sendo pedidos.
Seria tolo, se, nos meus objectivos, entrasse a vontade de agradar a toda a gente, porque — há que assumi-lo, sem medo das palavras —, em muitos casos, eu teria que estar, constantemente, a fazer uso da marcha-atrás; teria que esquecer ou menosprezar o tempo que consumi para chegar a conclusões; procurando, então, as graças de gente que não pensa; que não faz a mínima ideia do que é uma obra de arte; que não consegue ver para além da peça decorativa.
O meu universo temático está definido; como estão definidos os modos de trabalhar, bem como as luzes que, em geral, iluminam os modelos. Eu necessito de velocidade e de contrastes; necessito de trabalhar como se não tivesse tempo, porque não quero perder a emoção, a impressão; o que confere a dinâmica ao trabalho.
Por isso é que pinto, preferencialmente, a partir do natural, embora também possa utilizar estudos e a fotografia. Porém, quando uso a fotografia, o vício do natural já não me deixa cair na penteação. O método está interiorizado; o meu cérebro já só tem a imagem por referência, por ponto de partida.
E as minhas luzes não são, de facto, luzes de euforia, porque a própria euforia eu aprendi a combatê-la, à medida que a Vida me foi avisando que as presas mais fáceis são os tontos eufóricos; os que acham que cá andamos porque é necessário comemorar os aniversários, os natais, as páscoas e os carnavais. As minhas luzes são, ainda são, as luzes de quem está vivo e tem a consciência do efémero.
Depois, a modernidade não está na escolha temática, mas, antes, na caligrafia, na gestualidade, na fluência do discurso; na ligação que se consegue entre a emoção e a razão — não será estupidez, as pessoas dizerem que os gostos não se discutem, e, depois, passarem a vida a discutir os gostos?… E até sou insuspeito, de facto, porque sempre defendi que os gostos também podem ser discutidos, porque não há matéria que, de boa-fé, não possa ser dissecada.
Veja-se como se comportam as sociedades. Tão depressa aparece o Gerard Richter, mencionado como o último grito dos solstícios, como, sem que se espere, aparece o Freud, apresentado como o maior pintor vivo. Seria interessante, até, que tivessem sido as mesmas pessoas a definirem isso, fazendo-me lembrar aquele jurista a quem pediram um parecer para sustentar uma tese; e que, sob a reclamação de que a tese não saía beneficiada, se prontificou a redigir outro parecer… Se não foram, aceitaram, pelo silêncio, que outro rei, vindo dos antípodas, ascendesse ao trono — como é que se pode levar esta gente a sério?…

Por exemplo, a paisagem é um tema que me é duplamente caro. Caro, porque, independentemente de ser pintor, me atrai; caro por me ser útil, por ter sido e ser de grande importância na consumação das sínteses, com reflexos em todo o meu universo temático; o espaço onde faço, dentro do que me é possível, a reciclagem do gesto.
A paisagem permitiu-me o estabelecimento do fio condutor que liga toda a minha obra; foi a paisagem que — por imposição das leituras rápidas, pela necessidade de distinção, rápida, entre o acessório e o essencial — enraizou, em mim, aquilo a que chamo o gesto-único; o pensado-impensado, próprio do gestualismo. Inclusivamente, tenho, como sabes, publicado o livro com o título A Paisagem como O Lugar de Tudo, como reflexo da importância que atribuo ao tema, considerando-o, mesmo, o grande laboratório de toda a pintura.
Como se pode ver, nada acontece por acaso; tem a ver com o amadurecimento resultante do trabalho de execução e de análise. E, para ser sincero, devo dizer que, à medida que o tempo avança, eu acho, sobretudo, que o meu trabalho é parte do estudo que procuro fazer da Vida ou de uma parte da Vida. A minha pintura acaba por ser, fundamentalmente, o espaço de alguém que, acima de tudo, gosta de pensar, e gosta de reter, com expressão-própria, momentos e composições com que tem afinidade.
Antigo ou moderno, procuro, essencialmente, pertencer ao meu tempo, ao tempo que tenho dentro.

Na tua perspectiva o que torna o meio da arte um espaço reservado a algumas elites?
Bem!, alguém criou a ideia de que a Arte é um espaço de deuses. E não é. É um espaço que só pode ser frequentado por seres humanos, com características específicas, é verdade, mas humanas. E as poses e as excentricidades são excessos de pessoas que não terão muito em que pensar. Ou melhor, os verdadeiros conformam-se com o facto de serem originais; os falsos não descansam, enquanto não se sentirem cópias.
Será que estamos a falar de elites ou de pessoas que procuram enganar a Vida? Se for, invariavelmente, perdem, mesmo se desorganizados em sociedades secretas — ela encontra-os.

O distanciamento existente entre o público e a arte é cada vez mais notório. Que factores contribuem para este afastamento progressivo e o que poderá estancar este ciclo?
Do mesmo modo que afirmo que a Arte não é um espaço de deuses, também digo que não é o espaço para toda a gente.
Ainda paira, mais timidamente, embora, a ideia de que a Arte deve vir para a rua; que a Arte é do Povo. Mas a Arte e os seus espaços — a sua espiritualidade, entenda-se — estão abertos a toda a gente… de todos os estratos… mas que, no espírito, sintam a afinidade.
Ninguém, de bom senso, montará uma exposição, por exemplo, e vedará a entrada a pessoas que sejam pobres; que não se apresentem de smoking; que não saibam distinguir o copo do vinho do copo da água; o do vinho tinto do do vinho branco. Não me parece que seja ajuizado esperar que, quem quiser entrar nas exposições, ver os trabalhos, tenha, antes de mais, que fazer um estágio com a Bobone ou frequentar um qualquer centro espírita.
Como não adianta dizermos que adoramos ópera, e acabarmos por adormecer, ainda no primeiro acto. De smoking, de laço; conhecendo todos os talheres e todos os copos; com grande capacidade económica, mas de queixo pousado no peito e com laivos de baba; e acordando, sobressaltados e, sem sabermos como nem por quê, batermos palmas, tentando situarmo-nos e juntarmo-nos aos outros.
Continuo a dizer que tudo se resume ao mesmo: a afinidade.
No fenómeno do distanciamento, há, logo no princípio, o posicionamento da generalidade dos artistas — de uns, mais que de outros. Gostam muito que as pessoas apareçam — compradores, de preferência —, mas que não aborreçam. Esta é a primeira machadada na relação que poderia ser estabelecida entre quem faz e quem aprecia; quem, tendo ou não capacidade de aquisição, gosta de conhecer o fenómeno por dentro.

E é verdade, também, que as galeria não são muito dadas à apresentação dos autores, dentro daquilo a que poderíamos chamar a defesa do seu investimento —o que, maioritariamente, nem é, na medida em que, a esmagadora maioria, trabalha à consignação. Mas, mesmo que comprassem — e há as que compram, as que investem nos artistas em que acreditam —, deveriam preparar-se para esse diálogo necessário, porque a Cultura, no sentido lato, pressupõe o espaço de gente preparada e disponível para dar e trocar informação. Mais, pressupõe gente capaz de ajudar na formação — é este o motivo principal para o diálogo; porque a aproximação e a fidelização são uma consequência, uma consequência natural.
Nas minhas curtas experiências em Inglaterra ou na Irlanda ou em França, eu pude ver que toda a gente fala com toda a gente. Ninguém tem que tirar o chapéu ou fazer yoga, antes de perguntar, o que entender, aos próprios artistas. Não há preocupações de intelectualidade; todos têm direito ao que até pode ser um disparate, e que pode, inclusive, proporcionar o riso de todos.
Esta será, para mim, uma das razões porque as inaugurações são espécie de festas, com montes de gente a conversar, despreocupadamente e sem medo de que as obras ensurdeçam. Os espaços são para as pessoas se libertarem, se expressarem, e não para se inibirem, para se encolherem perante hipotéticos e inacessíveis deuses.
Porém, há uma espécie de animal novo; aquilo a que, sem ser despropositado, chamo o crítico reciclado: o curador. Antes, havia o champô; agora, há o champô e o amaciador, na mesma embalagem. Isto é, a ignorância é a mesma, que tem, também, agora, a possibilidade de reformular as mentes e os espaços; fazendo fintas com grandiloquência preenchida de discursos, eles-próprios plenos de palavras que não apontam a lugar algum, porque não há outro propósito nem outra possibilidade que não seja a de confundir.
Um pouco como acontece com boa parte das pessoas que vão à televisão, para participarem num qualquer debate ou mesa-redonda, percebendo-se ter sido, a grande preocupação, o alfaiate e o cabeleireiro, também os curadores ou a generalidade dos curadores se assemelham a araras que passam a vida a pentear e a passear as penas, mas sem darem atenção nem cuidarem do gogo.
E já se chegou ao ponto de, nos convites, aparecer, destacado, o nome do curador, andando, quem quiser, à procura do nome do autor das obras — telefonei, não há muito, para a Culturgest, por causa disto; fazendo-lhes sentir quanto a posição é ridícula.
Como parar o ciclo!…
Sendo uma área específica, a Arte não é um compartimento estanque; é um quarto ou uma sala de uma casa chamada Portugal, cuja mentalidade é específica e estranguladora. E se é verdade que a Arte é um espaço de libertação, de expressão, a visão da Arte, como realidade nacional, é influenciada pela realidade da nação; do mesmo modo que qualquer artista sofre a influência do homem que o suporta.
Então, antes que Portugal mude, o modo de ver a Arte não muda, porque os agentes, que são pessoas, não mudam… E será bom dizer que Portugal não mudará, se as pessoas, primeiro, não mudarem. É nelas que tudo começa. Tudo o resto é consequência.

A abolição do ministério da cultura é um ponto positivo para o mercado nacional ou mantêm-se as mesmas ideias em prática há anos?
Eu julgo que não andarei longe da verdade, se disser que a modificação se assemelhou, de algum modo, à da mudança da PIDE para a DGS, no tempo de Marcelo Caetano.
Os privilegiados não deixaram de ser os mesmos, ou os familiares ou os correligionários; talvez tenha mudado o grafismo dos formulários e, admito, por força das limitações económicas, que alguns tenham recebido um formal pedido de desculpas, pela impossibilidade ou pela redução da participação do Estado.
Eu acho, até, que, mesmo o organismo existente, a Secretaria de Estado da Cultura, é excessivo, porque o País lembra-me os senhores do volfrâmio, que, sem saberem escrever, traziam canetas, de tinta permanente, no bolso do peito do casaco…
A influência, do Ministério da Cultura ou da Secretaria da Cultura, no mercado, é relativa, porque é, fundamentalmente, indirecta. Isto é, de cada vez que dá cobertura a uma instituição, a um evento ou a um autor, está a influenciar a visão que o mercado — as pessoas, no fundo — passa a ter deles; mantendo-lhes ou aumentando-lhes, implicitamente, o prestígio e a cotação, que, como se sabe, é um elemento instável, porque tudo vale o que vale, de acordo com o facto de haver ou não haver quem pague. Seguro, seguro — e mesmo assim, depende — é o prestígio que, em princípio, advém do facto de, como elemento que é tido de referência, dar o apoio.

Porém, seja o Ministério, seja a Secretaria, nenhum deles teve ou tem funcionários especializados na avaliação do nível dos projectos propostos, no âmbito das artes plásticas, pelo menos. Sempre que é necessário analisar e decidir sobre propostas apresentadas — e, para as analisar, já é preciso que sejam de proveniência conhecida, porque, senão, lixo —, são chamados os especialistas, normalmente, analfabetos diplomados, que terão, como elementos de aferição, os nomes e as afinidades com os autores.
Aquando do colóquio Portugal: Que Futuro?, tive que os pôr em sentido, porque me tinha inscrito, atempadamente, e vinham com o argumento de que já não havia tempo para a minha exposição; eu, que já me fartara de os ver quase comendo-se — no melhor dos sentidos — uns aos outros!
Esta é a realidade que permanece, que não se alterou; e que, qualquer influência que possa ter, a terá, sempre, sobre um mercado, tal como o País, sem plano-director, sem fio-de-jogo
Para lá do comportamento do público há que analisar os comportamentos dos próprios artistas. Em que estádio colocas a evolução dos comportamentos dos artistas plásticos?
Em função da realidade, que foi evoluindo, até se chegar aqui, impõe-se dizer que a crise de circulação, no panorama das artes plásticas, já era anunciada, muito antes do anúncio daquilo que olhamos como crise transversal. Mais do que de artistas, o espaço começou a encher-se de curiosos e de mercenários; gente que, apoiada na incapacidade de leitura da generalidade das pessoas, ia pintando a manta — menos, felizmente, depois de aparecer a crise e as novas tecnologias, a prótese que, a muitos, faltava; mais as instalações, que, ainda bem, não são eléctricas, ou o País seria um curto-circuito pegado, apesar da já pouca luz..
A realidade que se vive é muito diferente da de não há muitos anos. A vida tem vindo a tornar-se um compartimento onde há dificuldade de respirar; os apertos são de toda a ordem; falta o espaço para o recolhimento, para se ser profundo, porque, com a evolução, as sociedades passaram a viver da superficialidade; a erva daninha tomou conta dos prados, e é difícil o cultivo de alguma coisa que tenha jeito.
São muitas as propostas de dispersão, e o presente é já o presságio de um futuro pleno de desequilíbrios — a percentagem de suicídios tem vindo a aumentar, querendo dizer que, parecendo haver tudo, as pessoas são menos felizes, porque sentem a necessidade de concorrer com entidades e lugares abstractos, tendo que se abandonar; tendo que sair de si para procurarem ser o que não são, na esperança de conseguirem ocupar lugares, para o bem e para o mal, já destinados e marcados.
Não chega cortar tubarões ou vacas e metê-los em clorofórmio; depositar cagalhões em cima de plintos e protegidos por redomas; não chega fazer papéis desumanos e estúpidos que gritam pela evidência, que são o desespero dos vazios afectivos, se não houver um gajo de merda, bem posicionado, que dê cobertura… Nada é suficiente, se não se pertencer ao rebanho dos cristos.
No fim das contas, nem acho que o público seja a maior vítima. As verdadeiras vítimas são os que, pensando envenenar, morrem com o seu próprio veneno e encharcados em álcool, Prozac ou Xanax.

Os circuitos no mundo da arte não deixarão de estar viciados?
Como disse, também, não existe o artista sem o homem, nem a Arte sem a Humanidade; e a Humanidade não sobreviveria sem o Instinto; sendo, o Instinto, o sustentáculo de todas as espécies, condicionando-lhes os movimentos. E os dias que vivemos são, exactamente, os da luta intensa e esforçada e desordenada contra o Instinto, num contexto de grande densidade populacional. Sempre seria uma luta inglória; mais, ainda, no meio de tanta gente.
Recupero a ideia de muito pasto, muitos carneiros, muitos lobos; pouco pasto, poucos carneiros… e os lobos a comerem-se uns aos outros.
Como em todas as áreas, a questão tem a ver com a ignorância, a ganância, as afinidades e a lei da oferta e da procura, num mundo de salve-se quem puder. E não prevejo que o mundo possa ser outro. Podem ser atenuadas algumas imperfeições, buriladas algumas arestas, mas, no geral, tudo se manterá como é, porque, se estivermos atentos, ainda que em tempos e com roupagens diferentes, os focos infecciosos continuam a ser os mesmos.
Definitivamente, os circuitos, em todos os mundos — da Arte e de qualquer outra área da actividade humana — nunca deixarão de ser viciados.

Faz sentido uma bolsa de valores de arte?
Não faz qualquer sentido nem é possível, se as pessoas e as instituições ainda quiserem fazer uso da honestidade.
Qual seria o padrão?… O metro?… O quilo?… Quem julgaria a qualidade dos gestos ou a proporção; a correspondência, entre a intenção e a forma, e entre a intenção e a cor?…
Tomemos, por exemplo, Van Gogh e os valores atingidos pelos Girassóis, 36 000 000 de Dólares, ou o Retrato do Dr. Gachet, 71 000 000 !!! Como é que se chegaria a este cálculo?…
Garanto que em nada interferiu o valor intrínseco das obras ou do autor. Estamos a falar de caprichos de gente que, ao Van Gogh, se fosse vivo, não daria 1 000 000, deixando-o, possivelmente, morrer à fome.
Já não estamos, como facilmente se depreende, a falar de arte, mas de ignorância e de vaidade, os verdadeiros motivos do negócio. E acho que, perante isto, se fosse conhecedor destas histórias, onde quer que esteja, Van Gogh repetiria o suicídio, mas com uma rajada de metralhadora.
Os problemas do mundo da Arte agravaram-se com aquilo a que poderemos chamar a industrialização e a economização de uma actividade que vive, na sua essência e totalmente, de afectos; alimentada pela necessidade dos espíritos activos e passivos que não podem passar sem a acção e sem a contemplação, neste domínio.
Percebe-se, a partir daqui, a razão da insegurança material dos artistas, que não são, propriamente, produtores de alguma coisa que, no aspecto físico, mate a fome ou a sede. E percebe-se, outra vez, agora, quando os tempos são de contenção e a Arte, em consequência, é relegada para a posição das coisas supérfluas. E digo supérfluas, porque não é, em termos físicos, uma necessidade vital; algo sem o que, na generalidade, as pessoas possam passar; porque há, de facto, dois ciclos de alimento: o do corpo, para segurar e revigorar o espírito; e o do espírito, para animar e rejuvenescer o corpo. E é consoante o tamanho do espírito, as necessidades do espírito, que os ciclos se equilibram ou, um ao outro, se sobrepõe.
É uma necessidade, sim, para os que, com as expressões do espírito, têm, repito, afinidade; para aqueles em quem a poesia, a música, a pintura, a dança, a escultura, a fotografia, o cinema, despertam a necessidade do voo, levando-os a alcançar distâncias, a evadirem-se de realidades, por vezes, enfadonhas, e a atingir estádios paralelos, ainda que diversos dos dos autores.
Pode-se viver disto?… Eu diria, antes, que se pode viver para isto; que há pessoas que vivem para isto, porque, antecedendo a questão económica, há a realização afectiva. E, quem pensar que o Van Gogh — já que o tomamos como exemplo — se suicidou por não vender quadros… engana-se; os problemas foram outros; o Homem suicidou-se porque não se compreendia, não se resolvia — coisas distintas.
É claro que, se olharmos em redor e virmos quem são os mais bem-sucedidos, os que preenchem todos os escaparates, eles são, em regra, oriundos de famílias que os puderam suportar. E há os que encontraram mecenas, que os protegeram; e os que, depois da Revolução Industrial, tiveram, como já referi, a cobertura do Partido.
De repente, de repente, totalmente desprovido de meios, pelo que conheço, só encontro o Giotto, que, aos 8 anos, era pastor; e que foi recolhido por Cimabue, que o levou para Roma, trabalhando ao serviço da Igreja.
A vida é como é e não vale a pena fazermos suposições. Poderemos, naturalmente, divagar e dizer que seria mais justo que as pessoas com talento nascessem no seio de famílias com posses. Do mesmo modo se poderia esperar que os pobres morressem de doença súbita, podendo, os ricos morrer de doença prolongada, por serem os únicos que a podem sustentar.
Pensou-se ou alguém, ingenuamente, terá pensado que a constituição das sociedades poderia ajudar a corrigir algumas discrepâncias. Porém — volto a referir o Instinto —, as sociedades não conseguem mais do que confirmar um animal ferrado pela ganância, pelo egoísmo, e com o saco cheio de mimetismos.

Como sobrevive um artista plástico que esteja fora do status quo?
Felizmente, por norma, os artistas não aspiram a construir impérios. E estou convencido de que, mesmo os que os têm ou tiveram, ou os herdaram ou acabaram por se ver envolvidos em processos inesperados; do género, já que me meteram nisto… siga!. Não foi projectado.
Quem gosta de cantar, não espera, para o fazer, até que o convidem para actuar no Scala de Milão ou de Nova Iorque; há-de cantar, muitas vezes, no banheiro. Do mesmo modo que, quem gosta de pintar, não espera, para o fazer, que o convidem a expor na Gulbenkian ou, mesmo, para uma colectiva, na Tate. As pessoas expressam-se porque têm necessidade de se expressar; é, este, o princípio lógico do percurso.
A partir de certa altura, quem tiver a possibilidade de conversar consigo-mesmo, acerca de si-mesmo, sobre as suas necessidades interiores e exteriores, acaba por perceber que o corpo é a ferramenta e o veículo de algo mais importante — não é o cérebro que protege o crânio, nem o coração que protege as costelas; há, tem que haver, uma ordenação das importâncias.
E, percebendo que o dinheiro tem importância, que é necessário, é bom que, quanto antes, se conclua não ser tudo, porque o que menos falta é gente, afectivamente, aos berros, por ter trocado os papéis. E pouco há que seja mais penoso do que alguém cheio de dinheiro, de angústias e de medos —volto a lembrar-me da história do buraco da agulha e dos camelos.
Então, do mesmo modo que, na vida, em geral, jovens, começamos a carregar todos os sonhos e expectativas, iludidos pelas promessas de uma Sociedade garantindo que tudo é possível e com lisura, e nos vemos, mais tarde, rodeados de trapaças, de mentiras, a ter que deixar cair expectativa atrás de expectativa, para preservação do equilíbrio físico e emocional — exactamente porque se reconhece a saúde, física e mental, como o fulcro —; enquanto artistas exteriores ao regime, é necessário ter-se a noção de que as cartas estão marcadas, de que o jogo está viciado, e de que as expectativas devem consubstanciar-se à necessidade de expressão e ao apetrechamento de conhecimentos e ferramentas que permitam a qualidade da expressão, antes e acima de tudo.
Esta é a âncora, o que segura; o que, ao invés do azedume, nos aconselha a pena, o dó, pela situação de muitos dos bem-sucedidos que não conseguem equilibrar-se sem antídotos — o destino das aves é voar… e tentar evitar as gaiolas.

A paisagem e as naturezas mortas são temáticas recorrentes no teu trabalho. Por que te atraem tanto?
Sobre a paisagem, já deixei, anteriormente, explicada a razão que me liga ao tema. Mas, bem vistas as coisas, e reforçando a ideia da paisagem como o lugar de tudo, eu acabo por não pintar senão paisagens, por mais diversas que sejam as composições, com objectos ou com figuras. O meu trabalho é, maioritariamente, constituído de momentos que quis captar; quer me tenham aparecido já enquadrados, no caso dos excertos paisagísticos, quer nos arranjos que procurei, em função de um ou outro objecto que me pedia um lar.
Os meus ateliers, por exemplo, sempre foram centros de desarrumação, porque sempre refletiram a minha pouca preocupação com o sítio das coisas. A não ser que esteja em casa de alguém, o sítio mais próprio, salvo algum exagero, é o que está mais próximo; a minha preocupação é a arrumação das ideias.
Então, de vez em quando, deparo-me com cenários em que pouco investi; o casual, o descomprometido, já lá está. Um toque ou outro, e o quadro está ali, à mão; bastará procurar a iluminação certa. E há, de facto, essa ligação afectiva às coisas; essa necessidade de percorrer e moldar ou remoldar objectos ou figuras que me prenderam a atenção ou que, mesmo, me apaixonaram, no sentido de as querer, digamos assim, eternizar; mas há, em muitos dos meus quadros, o aproveitamento da realidade, que eu uso para dar corpo a um certo simbolismo.

O que diferencia o carácter da tua obra do de outras correntes artísticas como o hiper-realismo ou até mesmo a fotografia?
Como acontece com os escritores, há os que são perifrásticos e os que são sintéticos; os que trabalham todos os detalhes, e os que, sem esquecerem o detalhe, trabalham mais sobre a visão do todo, separando ou procurando separar o que é essencial, ou lhes parece essencial, do que não faz grande diferença.

Na Pintura, há, também, quem respeite ou queira, mesmo, milimetricamente, os modelos, e há os que, servindo-se deles, respeitando-lhes o carácter — por alguma razão foram escolhidos como modelos —, introduzem ou retiram, consciente e inconscientemente, alguns elementos.
Eu ando por aqui. Procurando, cada vez mais, o meu quadro, a partir do quadro que eu compus ou que se me apresenta. Aliás, eu costumo dizer que sou o remetente e o destinatário dos meus gestos. É isto que respondo, quando um ou outro colega, ou jovens que querem enveredar por esta vida, expõem as suas dúvidas, sobre o modo como lidar com o gosto do público.
Taxativamente, o público não existe; virá, quando chegar a sua hora. E, aos que chegam e querem dialogar, que fazem perguntas, recomendo que escolham as obras da mesma forma que eu as pinto; optem por aquelas de que gostam; do mesmo modo que eu só pinto os quadros que me apetecem. Não há outra forma de sermos sérios.
Volto a frisar que esta é uma actividade de risco. Tal como a Vida, no fundo, não havendo garantias. É necessário que nos encantemos, primeiro, para sentirmos a esperança de que alguém se encantará.
E voltamos, outra vez, à Vida e à Arte; ao homem e ao artista, na medida em que o nosso gesto, a parte expressiva do que somos, é a ferramenta, o elemento extensor da pessoa que nos habita. O artista não é o pintor que anda à procura de paredes vazias; mas o que anda à procura de si-mesmo: dos seus quadros; dos seus lugares; da sua voz, do seu gesto; do seu prazer; da sua compleição; da sua correspondência; do seu reflexo… da sua consciência.
É por isso que, de há muito, defendo que o que há para discutir não é tanto a temática nem os estilos, mas a relação entre a pessoa e os temas, bem como, naturalmente, a razão e a qualidade dos estilos. O que há para discutir, afinal, é a relação ou a correspondência entre o autor e a pessoa.

Qual é o teu maior desejo enquanto artista?
Prefiro responder na qualidade de pessoa: — Ter saúde e poder viver fazendo aquilo de que gosto. Estas são, definitivamente, as grandes expectativas que eu tenho necessidade de que se concretizem. Não tenho, hoje, a menor dúvida de que só estas duas realidades, enquanto realidades, poderão garantir que sou um privilegiado. O resto, depende de com quem se tropeça, não valendo a pena fazer muitas contas.

O que entendes por respeito à arte?
O respeito — todo o respeito — tem mais a ver com a educação pessoal do que com qualquer licenciatura ou mestrado; embora pudesse dizer que só se respeita aquilo de que se gosta, como espécie de regra.
Mas não é verdade. Há autores de que não gosto — com cujo trabalho não tenho afinidade, entenda-se —, mas aos quais reconheço a honestidade, a entrega, o Amor-próprio. É isto, para mim, na Arte, o que merece ser respeitado.

 

TEXTO: TIAGO KRUSSE

PUBLICADO NA EDIÇÃO 7